Muitos empresários associam o mercado de capitais apenas às grandes companhias listadas na bolsa. Segundo Marcio Alaor de Araujo, executivo do mercado financeiro, a imagem não corresponde à realidade, já que boa parte das captações acontece por meio de títulos de dívida, e não pela venda de ações. Empresas médias têm à disposição instrumentos acessíveis, desde que estejam preparadas para as exigências de cada um.
Notas comerciais como porta de entrada
Regulamentadas de forma específica pela Lei 14.195, de 2021, as notas comerciais são títulos de dívida que podem ser emitidos por sociedades anônimas, limitadas e cooperativas. A legislação simplificou o instrumento, que passou a ter formato escritural, com registro em instituição autorizada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o que reduziu custos e etapas de emissão.
Na prática, as notas comerciais costumam financiar capital de giro ou projetos específicos, em geral com prazos mais curtos. Para uma empresa média, representam a chance de acessar investidores fora do sistema bancário e diversificar as fontes de recursos. O custo final depende do risco percebido, e a qualidade das informações apresentadas pesa diretamente na taxa obtida.
Debêntures também para sociedades limitadas
As debêntures são um dos instrumentos mais tradicionais de captação via dívida no mercado de capitais brasileiro. Até recentemente, sua emissão era associada às sociedades anônimas, o que levava muitas empresas a mudar de tipo societário antes de recorrer a elas. Em 2026, o Departamento Nacional de Registro Empresarial e Integração passou a admitir a emissão também por sociedades limitadas.
Na análise de Marcio Alaor de Araujo, a mudança amplia o leque de alternativas para empresas de controle familiar, que costumam adotar o formato de limitada. Sem a necessidade de transformação societária, custos e etapas burocráticas diminuem, e operações de prazo mais longo, como as voltadas à expansão ou a investimentos em capacidade produtiva, ficam mais próximas da realidade dessas companhias.
Fundos de recebíveis e outras estruturas
Outra alternativa são os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), que adquirem recebíveis de uma empresa, como duplicatas e contratos de venda a prazo, e antecipam os recursos correspondentes. A estrutura transforma vendas já realizadas em caixa, com custo que pode ser competitivo em relação às linhas bancárias, sobretudo quando a carteira de clientes é pulverizada e tem bom histórico.

Empresas ligadas ao agronegócio e ao setor imobiliário contam ainda com instrumentos específicos, como os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI). A escolha entre as alternativas depende do prazo necessário, do volume de recursos, das garantias disponíveis e da previsibilidade do fluxo de caixa, como sublinha Marcio Alaor de Araujo.
O que o mercado de capitais exige da empresa
Acessar investidores tem contrapartidas. Demonstrações financeiras auditadas, controles internos confiáveis e capacidade de prestar informações periódicas são condições frequentes para emissões de maior porte. Investidores também avaliam a governança, a qualidade da gestão e a dependência em relação ao fundador, porque esses fatores influenciam a probabilidade de que a dívida seja paga no prazo combinado.
Empresas que se organizam com antecedência conseguem condições melhores e prazos mais longos. A preparação inclui separar as finanças da empresa e dos sócios, profissionalizar a área financeira e manter um relacionamento estruturado com bancos, assessores e agentes do mercado, de modo que a primeira emissão não seja também o primeiro contato com o ambiente de investidores.
Mercado de capitais como parte da estratégia
Captar no mercado não deve ser uma decisão isolada, tomada apenas quando o crédito bancário se esgota. Quando a empresa enxerga a dívida como parte da estratégia, consegue alinhar prazos de pagamento ao retorno dos investimentos e evita financiar projetos de longo prazo com recursos de curto prazo, um descompasso que pressiona o caixa e limita o crescimento.
De acordo com Marcio Alaor de Araujo, diversificar as fontes de financiamento também reduz a vulnerabilidade a mudanças nas condições de crédito. Uma empresa que já emitiu títulos e construiu histórico com investidores tem mais alternativas quando os bancos restringem as linhas ou elevam as taxas, o que se traduz em maior autonomia nas decisões de investimento.