O National Institutes of Health (NIH), principal agência federal dos Estados Unidos para pesquisa médica, anunciou em 21 de setembro de 2026 um pacote de iniciativas para ampliar o uso de tecnologias baseadas em biologia humana na pesquisa biomédica. A estratégia prevê mais de US$ 88 milhões para dez projetos de infraestrutura distribuídos por nove estados e busca reduzir a dependência de modelos animais em etapas pré-clínicas, sem estabelecer a substituição imediata de todos esses métodos.
Segundo o National Institutes of Health, os investimentos pretendem fortalecer estruturas capazes de reproduzir aspectos da fisiologia humana com maior padronização. O conjunto de ações inclui modelos de tecidos, organoides, sistemas automatizados, inteligência artificial e ferramentas avançadas para análise de dados.
Laboratório terá organoides, robótica e inteligência artificial
Uma das principais medidas anunciadas é a criação de um laboratório no NIH Clinical Center. A unidade deverá reunir modelos padronizados de organoides humanos, robótica, inteligência artificial e sistemas de análise de dados. A proposta é permitir experimentos mais reproduzíveis em sistemas biológicos humanos e acelerar a avaliação de doenças, tratamentos e potenciais medicamentos.
Organoides são estruturas produzidas a partir de células humanas que reproduzem determinadas características de órgãos ou tecidos. Embora não representem um organismo completo, esses modelos podem ajudar pesquisadores a observar mecanismos de doenças e respostas a intervenções em um ambiente mais próximo da biologia humana do que algumas abordagens convencionais.
A estratégia também se relaciona às chamadas New Approach Methodologies, ou NAMs. O termo reúne métodos que podem complementar ou substituir determinadas etapas de pesquisa com animais, incluindo modelos celulares e de tecidos humanos, sistemas “órgão-em-um-chip”, modelagem computacional e ferramentas de inteligência artificial. De acordo com o NIH Grants & Funding, essas metodologias são consideradas alternativas ou abordagens complementares dentro da pesquisa biomédica.
Prêmios vão estimular soluções quânticas
Além do financiamento destinado à infraestrutura, o pacote inclui um desafio com mais de US$ 7 milhões em prêmios para soluções de computação quântica aplicadas a métodos alternativos de pesquisa. A iniciativa amplia o escopo tecnológico do programa e busca atrair propostas capazes de utilizar recursos computacionais avançados na investigação biomédica.
A computação quântica ainda está em desenvolvimento, mas pode ser aplicada a problemas que exigem a análise de grandes volumes de dados e a simulação de sistemas complexos. No contexto apresentado pelo NIH, o objetivo é explorar seu potencial em conjunto com modelos humanos e outras ferramentas voltadas à modernização dos estudos pré-clínicos.
Estratégia prevê mudanças na avaliação científica
O anúncio também menciona a criação de mecanismos para atrair especialistas em ciência baseada em modelos humanos para os painéis responsáveis pela avaliação de pedidos de financiamento. A medida pretende ampliar a presença de conhecimentos relacionados a organoides, modelos de tecidos, inteligência artificial e outras NAMs nos processos de análise de projetos científicos.
Outra frente é uma consulta pública sobre a possibilidade de divulgar anualmente o número de animais vertebrados utilizados em pesquisas financiadas pelo NIH. A proposta está inserida em uma estratégia mais ampla do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, o HHS, para modernizar a pesquisa biomédica e reduzir testes considerados desnecessários.
O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos informou que a agenda integrada pretende acelerar o desenvolvimento e a adoção de métodos baseados em modelos humanos. A página do órgão sobre redução de testes em animais reúne as medidas relacionadas a esse objetivo.
Transição não elimina todos os modelos animais
A mudança anunciada pelo NIH deve ser compreendida como uma transição tecnológica e científica, e não como a eliminação imediata de todos os modelos animais. A própria agência afirma que esses modelos continuam sendo utilizados quando são considerados cientificamente necessários. A expansão de organoides, sistemas de tecidos, inteligência artificial e modelagem computacional busca aprimorar a seleção de métodos e reduzir o uso de animais em situações nas quais existam alternativas adequadas.
Para a pesquisa biomédica, o avanço pode aproximar determinadas etapas pré-clínicas das características do organismo humano. Isso tem impacto potencial sobre a compreensão de doenças, a avaliação de segurança e o desenvolvimento de terapias. No entanto, a utilidade de cada tecnologia dependerá da validação dos modelos, da reprodutibilidade dos resultados e da capacidade de integração entre diferentes fontes de dados.
Com os novos investimentos, o NIH coloca a pesquisa biomédica baseada em modelos humanos no centro de uma agenda que combina saúde, biotecnologia e computação avançada. A iniciativa também sinaliza uma tentativa de reorganizar a infraestrutura e os critérios de avaliação científica nos Estados Unidos, ampliando o espaço para métodos que reproduzam de forma mais precisa aspectos da biologia humana.