Alfredo Moreira Filho, engenheiro agrônomo que atuou na extensão rural amazônica a partir de 1971, trabalhou por anos em um ambiente em que variáveis centrais para o resultado do seu trabalho estavam completamente fora do seu controle, condição que desenvolveu uma forma específica de planejar e decidir que poucos ambientes profissionais conseguem replicar.
O que significa trabalhar com variáveis que não obedecem?
Nenhum agrônomo controla a quantidade de chuva que vai cair no mês seguinte. Nenhum técnico de extensão rural consegue impedir que uma geada atrase a floração ou que um surto de praga destrua semanas de trabalho bem executado. O resultado final de qualquer projeto agrícola depende de uma combinação entre o que o profissional faz e o que o ambiente decide fazer, e essa segunda variável não está disponível para negociação.
Trabalhar com essa realidade por anos não torna o agrônomo fatalista, torna-o pragmático de uma forma específica: aprende a planejar considerando cenários, a construir margens de segurança que absorvam variações inesperadas e a tomar decisões robustas que funcionem razoavelmente bem em um conjunto de condições possíveis, em vez de ótimas apenas na condição ideal que pode nunca se materializar.
A diferença entre risco gerenciável e incerteza real
Em um projeto de engenharia convencional, a maioria dos riscos pode ser mapeada e mitigada antes da execução. Em um projeto agrícola na Amazônia dos anos 1970, como os em que Alfredo Moreira Filho atuou, a incerteza real era a norma: sazonalidade imprevisível do rio, comportamento de culturas em solo de várzea sem dados históricos suficientes, dinâmicas ecológicas sem paralelo em qualquer referência disponível.
Aprender a trabalhar nesse ambiente não significa aprender a aceitar o fracasso com resignação; na realidade, significa desenvolver planos que não dependam de tudo dar certo para produzir algum resultado útil, estratégia que a gestão de projetos modernos chama de robustez e que a agronomia praticada em campo ensina de forma inevitavelmente concreta.
Por que essa habilidade é rara e valiosa em qualquer contexto?
A maioria dos profissionais formados em ambientes controlados, sejam eles laboratórios, escritórios ou indústrias com processos bem definidos, desenvolve planejamento baseado na premissa implícita de que as variáveis relevantes são conhecidas e gerenciáveis. Quando o ambiente muda de forma inesperada, esse tipo de planejamento falha porque foi construído para funcionar em condições que deixaram de existir.

Profissionais que desenvolveram habilidade de trabalhar com incerteza real constroem planos diferentemente: com mais cenários alternativos, com decisões que preservam flexibilidade para ajustar à medida que o ambiente revela suas condições reais, e com métricas de sucesso que consideram o que está fora do controle tanto quanto o que está dentro.
O que a extensão rural amazônica ensinava sobre adaptação?
A Acar-Amazonas, onde Alfredo Moreira Filho trabalhou como chefe do escritório de Itacoatiara, atendia produtores rurais em condições que variavam radicalmente de acordo com o ciclo do rio, a distância das vicinais e as práticas agrícolas locais. Cada produtor era um contexto diferente, cada visita técnica exigia leitura específica da situação, e nenhuma solução padrão funcionava igualmente bem em todos os casos atendidos.
Essa multiplicidade de contextos, combinada com a imprevisibilidade das condições naturais, criou um ambiente de aprendizado sobre adaptação que nenhum treinamento formal poderia replicar. O técnico que sobrevivia profissionalmente naquele contexto era o que aprendia a ajustar o plano sem perder o objetivo, característica que distingue profissionais capazes de operar em ambientes complexos dos que funcionam bem apenas em condições estáveis e previsíveis.
Como esse repertório se transfere para a gestão de negócios?
Ambientes de negócios complexos compartilham com a agronomia amazônica uma característica fundamental: variáveis importantes estão fora do controle de quem planeja e decide. Mercado, regulação, comportamento de concorrentes e mudanças tecnológicas são, para o gestor, o equivalente do clima e da sazonalidade do rio para o agrônomo.
Alfredo Moreira Filho, ao transitar da extensão rural amazônica para a gestão empresarial pelo Grupo Valore+, carregou um repertório de tomada de decisão em condições de incerteza que poucos gestores formados exclusivamente em ambientes corporativos conseguem desenvolver com a mesma profundidade e concretude de quem aprendeu esse princípio em campo.