Contraexemplo de apenas 216 caracteres derruba conjectura formulada em 1939 e reacende debate sobre o papel da IA na criação de conhecimento científico.
Um problema matemático formulado em 1939 e que resistia a qualquer solução definitiva teve, enfim, um desfecho inesperado. O matemático Levent Alpöge, pesquisador da Universidade Harvard, publicou nas redes sociais um contraexemplo capaz de derrubar a chamada conjectura do Jacobiano, um dos enigmas mais conhecidos da matemática moderna. O detalhe que mais chamou atenção da comunidade científica foi o processo usado para chegar à resposta: segundo o próprio pesquisador, a solução contou com ajuda significativa de um modelo de inteligência artificial, o que fez especialistas classificarem o caso como um dos exemplos mais relevantes já registrados de colaboração entre humanos e máquinas na resolução de problemas matemáticos complexos.
Uma conjectura de 87 anos derrubada por uma única linha
A conjectura do Jacobiano foi formulada pelo matemático Ott-Heinrich Keller em 1939 e propunha que determinado tipo de função matemática também deveria funcionar no sentido inverso. O problema atravessou décadas sem resposta definitiva e, em 1998, chegou a integrar uma lista de dezoito grandes desafios matemáticos para o século vinte e um, organizada pelo matemático Stephen Smale. Ao longo de todo esse tempo, a maioria dos pesquisadores que se dedicava ao tema buscava provar que a conjectura era verdadeira, e não o contrário.
Foi justamente essa expectativa que tornou a descoberta de Alpöge tão surpreendente. O contraexemplo publicado por ele tem apenas 216 caracteres e já foi confirmado por outros matemáticos como válido, ainda que o processo interno usado pela inteligência artificial para chegar a esse caminho de solução ainda não tenha sido totalmente explicado pelos pesquisadores envolvidos. Segundo relato do próprio Alpöge, ele contou com apoio de um assistente de inteligência artificial da Anthropic para o desenvolvimento do trabalho.
O que especialistas dizem sobre o papel da inteligência artificial
Para pesquisadores da área de matemática que acompanharam o caso, como um professor da Queen Mary University of London consultado pela revista New Scientist, este é possivelmente o maior problema matemático em que a inteligência artificial já teve participação relevante na comprovação ou refutação de uma hipótese. Segundo ele, muitos matemáticos historicamente evitavam tentar refutar a conjectura, já que ela parecia intuitivamente correta, o que torna o contraexemplo de uma única sentença ainda mais surpreendente para a comunidade científica.
É importante destacar que a descoberta não encerra por completo a discussão em torno do problema original. O contraexemplo encontrado derruba a conjectura especificamente no caso de três variáveis, mas uma versão equivalente envolvendo apenas duas variáveis segue em aberto e ainda pode ser válida, segundo especialistas da área. Isso significa que parte do desafio proposto por Keller em 1939 continua sem solução definitiva, mesmo após esse avanço recente.
Um debate sobre criatividade humana e inteligência artificial
O episódio reacendeu uma discussão mais ampla sobre até onde a inteligência artificial pode avançar na produção de conhecimento científico original. Pesquisadores de universidades como a de York e a Westlake University, na China, avaliam que, embora a tecnologia já tenha demonstrado capacidade de encontrar soluções em problemas complexos, isso não significa que a criatividade humana tenha perdido espaço na matemática. Como exemplo, especialistas citam o Último Teorema de Fermat, solucionado pelo matemático Andrew Wiles em 1994 depois de anos de trabalho dedicados à criação de teorias inteiramente novas, e não apenas à busca por uma resposta pontual.
Ainda assim, há consenso entre os pesquisadores consultados de que modelos de inteligência artificial cada vez mais avançados devem transformar significativamente a forma como a pesquisa matemática é conduzida nos próximos anos. Para eles, casos como o de Alpöge indicam uma nova fase da descoberta científica, em que humanos e sistemas de inteligência artificial passam a trabalhar lado a lado na formulação e verificação de hipóteses, sem que isso substitua o papel da intuição e da criatividade características do trabalho matemático tradicional.
Fontes:
Olhar Digital | New Scientist