Plataforma apresentada na Febraban Tech 2026 promete preços mais competitivos e dados mantidos em território nacional para empresas públicas e privadas
O Serpro, empresa pública de tecnologia da informação vinculada ao governo federal, apresentou durante a Febraban Tech 2026 sua plataforma de inteligência artificial soberana, uma iniciativa que busca posicionar o Brasil como fornecedor competitivo de tokens de IA, hoje amplamente dependentes de infraestrutura estrangeira. A proposta, segundo a própria empresa, nasce de um diagnóstico simples: os tokens necessários para operar sistemas de inteligência artificial estão caros, escassos e concentrados fora do país, o que encarece a operação de empresas brasileiras que dependem dessa tecnologia no dia a dia.
O que significa ter uma IA soberana
Segundo Carlos Rodrigo Fonseca Lima, superintendente de Inteligência Artificial do Serpro, a proposta da IA soberana é justamente trazer esses tokens para dentro do território nacional, processados em data centers localizados no Brasil e operados por uma empresa pública. Na prática, isso significa que empresas privadas, órgãos públicos e instituições financeiras poderiam utilizar modelos de inteligência artificial sem depender de servidores hospedados em outros países, reduzindo tanto o custo de operação quanto a exposição a riscos relacionados à soberania de dados sensíveis.
A oferta do Serpro inclui não apenas o acesso à infraestrutura computacional, mas também treinamento, instalação e operação continuada por empregados da própria empresa, dentro de suas instalações. Essa abordagem completa busca atrair especialmente instituições que lidam com informações sigilosas e que, até então, hesitavam em depender de provedores estrangeiros de nuvem para rodar seus próprios modelos de IA.
Por que a questão da soberania de dados ganhou tanto peso
Durante sua apresentação, Fonseca Lima questionou diretamente por que uma empresa ou banco brasileiro não teria interesse em manter seus dados em território nacional, operados por uma empresa do governo, com garantias de segurança equivalentes às de qualquer estrutura estatal. Esse argumento reflete uma preocupação crescente entre instituições financeiras e órgãos públicos brasileiros: à medida que mais processos internos passam a depender de inteligência artificial, a localização física dos dados processados se torna uma questão estratégica, não apenas técnica.
Essa discussão ganhou ainda mais relevância em um contexto no qual grandes provedores globais de inteligência artificial concentram a maior parte de sua infraestrutura fora da América Latina, o que obriga empresas brasileiras a arcar com custos adicionais de latência, câmbio e, em alguns casos, incerteza regulatória sobre onde exatamente seus dados estão sendo armazenados e processados.
O investimento bilionário dos bancos em tecnologia
O lançamento da IA soberana do Serpro ocorreu justamente durante um dos maiores eventos de tecnologia bancária do país, o que não é coincidência. Segundo a 34ª edição da Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária, realizada com apoio da Deloitte, os bancos brasileiros devem investir R$ 50,4 bilhões em tecnologia em 2026, um crescimento de 8% em relação aos R$ 46,8 bilhões aplicados no ano anterior. Cibersegurança aparece como prioridade máxima, citada por 100% das instituições consultadas, enquanto nuvem e inteligência artificial generativa empataram na segunda posição, mencionadas por 84% dos bancos participantes da pesquisa.
Rodrigo Mulinari, diretor responsável pelo levantamento, destacou que esses números mostram como a tecnologia deixou de ocupar um papel apenas de suporte dentro dos bancos e passou a ser o centro da própria operação bancária. Esse cenário ajuda a explicar por que uma proposta como a IA soberana do Serpro encontra terreno fértil justamente entre instituições financeiras, que lidam diariamente com grandes volumes de dados sensíveis e transações que precisam de segurança e velocidade.
Como a IA já é usada para proteger o sistema financeiro
Durante o mesmo evento, executivos de cinco dos maiores bancos do país demonstraram publicamente como já utilizam inteligência artificial para detectar riscos e responder a tentativas de ataque em tempo real. Ao mesmo tempo, esses representantes reforçaram a necessidade de manter limites claros de autonomia para esses sistemas, com governança adequada e supervisão humana constante, evitando que decisões críticas fiquem inteiramente nas mãos de algoritmos sem checagem posterior.
Essa combinação entre avanço tecnológico e cautela regulatória reflete um movimento mais amplo no setor financeiro brasileiro, que busca aproveitar os ganhos de eficiência trazidos pela inteligência artificial sem abrir mão de mecanismos de controle capazes de identificar rapidamente qualquer comportamento anômalo nos sistemas.
O papel do Pix na pressão por mais infraestrutura
Outro fator que ajuda a explicar o apetite crescente por soluções como a IA soberana é o próprio volume de transações que passam pelos sistemas bancários brasileiros atualmente. Somente em maio, o consórcio dos bancos brasileiros anunciou que o país havia ultrapassado, pela primeira vez, a marca de 200 bilhões de transações bancárias registradas em um único ano. Como o Pix opera de forma ininterrupta, 24 horas por dia, sete dias por semana, a estabilidade dos sistemas que sustentam essas transações se tornou uma prioridade estratégica para as instituições financeiras, o que reforça a demanda por infraestrutura de processamento robusta e, cada vez mais, localizada dentro do próprio país.
O que esperar da adoção da IA soberana
Ainda é cedo para medir o impacto concreto da proposta lançada pelo Serpro sobre o mercado brasileiro de inteligência artificial, mas a iniciativa se insere em um movimento mais amplo de busca por autonomia tecnológica que vem ganhando força tanto no setor público quanto no privado. Caso a proposta consiga de fato oferecer preços competitivos frente aos grandes provedores internacionais, especialistas do setor acreditam que ela pode se tornar uma alternativa relevante especialmente para pequenas e médias empresas, que hoje enfrentam maior dificuldade para arcar com os custos elevados de acesso a tokens de inteligência artificial processados fora do Brasil.
Fontes:
https://convergenciadigital.com.br/governo/serpro-com-ia-soberana-quer-ser-a-opcao-para-compra-de-tokens-no-pais/
https://forbes.com.br/forbes-money/2026/06/bancos-investimento-tecnologia-febraban-2026/
https://proximonivel.claro.com.br/febraban-tech-2026/